segunda-feira, 22 de julho de 2019

Ano 8 - Post 135 - COMO FRACASSAR COMO EMPREENDEDOR?

Estou fazendo um tratamento fisioterápico para me livrar de uma incomodação no meu tornozelo, e, tenho tido a oportunidade de conversar muito com a fisioterapeuta que me atende, sobre seus planos para incrementar seu negócio para 2012. Ela me diz "passado esta fase da posta em marcha" preciso qualificar minhas atividades para fidelizar e encantar meus atuais clientes, e, para que eles sejam o meu processo de desenvolvimento de uma nova carteira de clientes. Nada mais correto e adequado, pois ela precisa se livrar de todas as amarras (imã que puxa para trás) que normalmente levam a mortalidade crescente dos novos negócios. Refletindo sobre isso fui pesquisar a literatura que tinha sobre o tema, e descobri o livro 10 Mandamentos para Fracassar nos Negócios, da Editora Sextante, que mostra claramente como fechar o negócio antes dos primeiros 2 anos de existência.
Vou referir a seguir sobre os pontos que achei mais interessantes e que merecem uma reflexão de todos os novos empreendedores:

1. Não corra riscos nos primeiros anos do seu empreendimento, principalmente, em períodos de incerteza da economia, não invista em marketing, em comunicação, em se fazer conhecer no mercado, em encantar e fidelizar os seus clientes. Atue com o freio de mão puxado. Seja um empresário controlado e controlador.

2. Seja o mais inflexível possível, não vá nessa conversa de programas de qualidade, de melhoria na gestão do negócio, faça as coisas do velho jeito que as pessoas que você confia sempre fizeram. Não pense em aumentar o mix dos seus produtos e serviços para atender as necessidades e as expectativas dos seus atuais clientes. Se está dando certo da forma que você iniciou, preserve o formato. Focar na visão de clientes é tema de marketeiros para vender projetos de propaganda.

3. Filosofia coaching, liderança servidora, ouvir a voz dos colaboradores, são conceitos que não tem sentido prático para um empreendedor objetivo. Isole-se, trabalhe numa sala fechada, nunca converse amistosamente com os membros da sua equipe, mantenha uma pressão grande por cumprimento de horários, por não existirem faltas, por "vestir a camisa da sua empresa", pois os empregados tem uma visão distorcida dos empresários, e, julgam que estes, somente focam nas formas e ações que tornem a sua conta bancária mais "gorda".

4. Mantenha distância dos clientes e jamais admita um erro para eles. Normalmente clientes são reclamões e mal intencionados, e, na real, devemos transferir para eles a responsabilidade por qualquer coisa que não deu certo. Se eles não voltarem mais na sua organização, com certeza, terão outros que virão.

5. Seja audacioso, principalmente para vislumbrar brechas fiscais. Ao invés de se perguntar "isso é certo?", pergunte-se "será que dá para fazer isso sem ser apanhado?". Você com certeza conhece inúmeros donos de negócio que usam a economia informal para crescer. O governo não está aparelhado; esta história de integração eletrônica de dados é só para empresas gigantescas.

6. Se precisar busque um mentor de negócios, mas cuide que os honorários cobrados sejam bem baixos. Existem muitos consultores gentis e agradáveis que lhe provarão que nada melhor do que confiar cegamente em especialistas.

7. Não trabalhe com gente que pensa; você está contratando os músculos e não a inteligência das pessoas. Crie a maior burocracia possível para tolher qualquer tentativa de iniciativa dos seus funcionários para fugir das regras e rotinas que você estabeleceu. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

8. Nunca seja claro em nada; de preferência, mantenha comunicações confusas, de duplo sentido, com os seus funcionários, fornecedores, prestadores de serviço e clientes. Se você manter comunicações confusas está livre de ser responsabilizado por alguma coisa.

9. Cada vez que lhe perguntarem "como vai a empresa?", diga que vai mal, que a carga de impostos é muito alta, que os juros cobrado pelos bancos são impagáveis, que não se encontram mais funcionários leais e comprometidos, e, principalmente, que a crise da Europa e Estados Unidos vai chegar muito em breve aqui, e, como não estamos preparados para enfrentá-la, vai ser "um Deus nos acuda". Crie um clima de temor quando ao futuro dos negócios e da economia brasileira.

10. Para finalizar, não tenha informações gerenciais, mantenha um contador somente para fazer as guias dos impostos que realmente precisam ser pagas, não tenha controles de avaliação do cumprimento de metas, alías, não gaste tempo em ter e divulgar metas.

Seguindo esta cartilha à risca, ligue-me para que eu possa lhe indicar um excelente advogado em processos de falência e recuperação de negócios.

QUIZ:

Será que realmente existe benefício para o meu negócio em adotar práticas de excelência em gestão? Será que "liderança, conhecimento e atitude" pode me ajudar a ter sucesso continuado?

terça-feira, 16 de julho de 2019

Ano 8 post - 134 - Coaching – Estratégia e Desenvolvimento de Líderes

“O pensamento estratégico é aquele que permite a compreensão das complexas relações entre o negócio e o seu entorno”
A questão estratégica vem tomando uma forma cada vez mais diversa do que no passado. Quando observamos o ambiente de negócios nas últimas décadas, os grandes vetores estratégicos, antes balizas direcionadoras, tornaram-se extremamente voláteis.
Já não basta mais um grupo competente e experiente mergulhado em uma grande massa de dados, tampouco a aplicação de metodologias que comumente se apoiam em projeções que fixam um “futuro provável”, o que sabemos hoje ser extremamente impreciso. Estes são alguns dos motivos pelos quais os tradicionais Planejamentos Estratégicos vêm perdendo sua eficácia em direcionar as organizações.
Mais do que nunca, o “pensar estrategicamente” passou a ser um caminho eficaz. Habilitar a organização a pensar estrategicamente, incorporar o estratégico no modelo mental das lideranças, sair das fronteiras conhecidas, requerem um movimento no comportamento do indivíduo. Mais do que pensar o “futuro provável”, vislumbrar “futuros ou mudanças possíveis”. Ao percorrer este caminho aprendemos mais sobre este futuro do que trabalhando formulações que tentam “acertar” como ele será. Outra dimensão importante na questão estratégica, atualmente, é o “pensar contingencial ou emergente”, que acolhe em grande medida a volatilidade do ambiente de negócios.
O desafio então é: como as organizações devem orientar o desenvolvimento de suas Lideranças para que sejam protagonistas efetivos na construção e implementação estratégica do negócio?
Algumas dimensões são de alto impacto nas questões estratégicas e devem ser trabalhadas à exaustão: o conhecimento do Ser Humano, a Visão Global de Mundo e do Negócio e ter em conta que vivemos conectados e em constante interação.
Hoje já se pode traçar vários paralelos da questão estratégica com a arte, uma vez que esta sempre incorporou a inspiração a imaginação e a intuição, bem como a noção do “todo” na sua essência, sendo sempre inclusiva com as características do Ser Humano.
“Todos os homens estão interligados numa teia sem escape de mutualidade, entrelaçados no tecido singular do destino. O que quer que afete alguém diretamente, afeta a todos indiretamente”.
Martin Luther King
A mudança de paradigma é de tal magnitude e envolve mudanças tão profundas nos modelos mentais, que uma preparação específica dirigida aos Líderes é altamente recomendável para navegarem com confiança nestes mares desconhecidos.
Evidências têm mostrado que um caminho eficiente para encararmos este desafio é o processo de Coaching. Coaching como um processo que desperta no Líder o pensar estratégico a partir de suas habilidades e bagagem profissional, revelando e mobilizando-o a usar estes potenciais e estimulando-o a levá-los à sua plenitude.
Incertezas: Como lidar?
Hoje o Ser Humano está envolto e tomado por movimentos erráticos em muitas áreas e em todo o seu entorno. Na natureza, nos comportamentos, na saúde, enfim o gênero humano passa por um momento de muita incerteza. O amanhã é quase sempre uma fonte de preocupação e dúvida. Se pensarmos que o incerto é um “primo irmão” do desconhecido, concluímos que nossos órgãos de percepção, que até então eram utilizados para interpretar o mundo, já não são mais tão eficientes. Mais do que isto, esta imprecisão na leitura e os resultados quase sempre desmotivadores que provocam, trazem o medo, desabilitam nas pessoas a capacidade de ousar e de abrir-se para o novo e a tomar riscos, buscando o porto seguro em paradigmas vigentes ou anteriores, nem sempre aplicáveis a um contexto emergente.
Lidar com o incerto requer uma base sólida de autoconhecimento. Assim, é preciso tomar contato com as habilidades e fraquezas que temos e fazer uso desta consciência para trazer serenidade, discernimento e autodesenvolvimento. Mais do que as informações em quantidade, há que se voltar para a qualidade e aprender a ler o que elas estão querendo dizer, encontrar padrões ocultos nestas informações. Tirar proveito do trabalho em grupos não homogêneos abre horizontes e enriquece este processo. O Coach apoia este processo de maneira ativa, provocando a escuta e a observação cuidadosa dos fatos e ao mesmo tempo é uma fonte de inspiração para o Coachee “desafiar” paradigmas tidos como intocáveis. O Coach em seu papel, pode conduzir o processo no sentido de que a pessoa se apodere destas suas capacidades e as coloque a serviço dos desafios que o contexto de incerteza apresenta.
Cenários: Como construí-los?
“É irrelevante o quão precisas e extensivas são nossas pesquisas sobre o futuro, nunca escaparemos do dilema de que nosso conhecimento é sobre o passado e todas as nossas decisões são sobre o futuro”.
Temos medo de falar sobre cenários prospectivos… eles estão no futuro. Temos medo do incerto, por esta razão sempre ocorre a tentação de “enjaulá-lo”. Como? Fazendo projeções. Ao trabalhar cenários plausíveis, a proposta é libertar nossas mentes do passado e mergulhar no futuro e enxergar o surpreendente, o inesperado e o desconhecido.
Existem várias vertentes e metodologias de construção de cenários, todas com suas virtudes e defeitos, mas todas provocam algo positivo. Ao construir um cenário, aprendemos muito sobre o futuro. Pode parecer incompreensível, mas é isto… ao se conversar sobre um futuro possível, nós trabalhamos com as variáveis que o envolvem, discutimos, refletimos e chegamos até a visualizar imagens ou estórias que traduzem este futuro.
Este aprendizado nos municia com informações ricas que apoiam as nossas escolhas.
Aqui o Coach pode trazer luz à conversação. Utilizando-se da “arte da pergunta”, ele conduz uma conversa que desafie o modelo mental de quem recebe o Coaching e o inspira a formar imagens sobre possibilidades que o futuro pode nos reservar. O Coach “puxa” o Coachee para o futuro, tirando-o da zona de conforto (o presente ou passado).
A base para a construção destas ideias são as chamadas “incertezas críticas”. Elegendo um bom elenco destas incertezas, definindo polaridades para elas e deixando a imaginação trabalhar, pode-se construir um conjunto de cenários que habilitarão os envolvidos a lidarem com estas incertezas. Se assim procedermos, vamos trabalhar um conjunto de informações valiosas sobre o “Futuro Possível” e, como mencionamos antes, este trabalho passa a ser um aprendizado sobre o futuro.
Uma segunda etapa importante é a análise dos impactos que os Cenários podem produzir no negócio, e a partir deles tomar contato com as contingências que se pode estabelecer e, com elas, preparar os movimentos adequados. Insistimos, uma vez mais, que o processo de construir estes Cenários é mais valioso que o próprio resultado final dele e pensar de maneira estruturada sobre eles estabelece uma força capaz de moldar nossos modelos mentais.
O processo descrito parece trabalhoso, o Coach deve transformá-lo em algo prático, intuitivo, imaginativo. “As perguntas” são ferramentas poderosas na criação destas peças de imaginação. O repertório do Coach é de extrema importância para alimentar e conduzir este processo. O Coaching pode ser desenvolvido de maneira individual ou em grupos maiores, ou combinando as duas práticas.
Até aqui tratamos aspectos sutis do comportamento e sentimentos quando transitamos pelas incertezas. Com o apoio da razão, imaginamos e arquitetamos futuros possíveis. Parece faltar uma peça para completar a obra, não parece?….
Inovação: O que é inovação afinal?
O Novo, aquilo que vai para o mundo e o transforma. É a inovação que vai fazer a diferença, é uma intenção feita realidade, trazendo o concreto para as dimensões anteriores.
É importante alinhar o entendimento do conceito de inovação. Não é tão óbvio. Não se trata de impor uma definição, mas de recomendar que o Coach dedique um tempo com os(as) protagonistas a fim de definir uma imagem / entendimento comum naquele contexto (negócio / entorno).
A inovação não é apenas uma boa ideia, ela traz sempre consigo um conceito que toca os mais ocultos desejos ou necessidades de um indivíduo ou grupo. A inovação pode também atender a anseios ou mitigar questões da sociedade.
A inovação, muito raramente, surge de um acontecimento ao acaso; conscientemente ou não as pessoas estão sempre em busca do novo.
A atuação do Coach é trazer esta busca para consciência do Coachee e provocar a atitude de ser curioso, de buscar e experimentar.
O Coach deve trabalhar com o Coachee para, de maneira consciente, aceitar que o falhar faz parte do processo, e que não há nada de errado.
Algumas armadilhas ao se trabalhar com o tema Inovação:
  • O modelo de negócio atual dominando as agendas;
  • Insistir em planos de negócios detalhados para novas ideias;
  • Dar mais crédito a opiniões do que a evidências;
  • Falta de dedicação e comprometimento das lideranças;
  • Obsessão pela concorrência e não pelo cliente;
  • Inovação desconectada da gestão;
  • Aversão ao risco;
  • Julgamentos antecipados (apressados).
Estes três componentes se combinam em um poderoso conjunto para nos apoiar no trato com as questões estratégicas e creio que vamos cada vez mais trabalhar com eles no futuro.
Convido o leitor a refletir e questionar-se: Como eu tenho me preparado para o amanhã? Sabendo que o que tenho sobre ele é: Volatilidade – Incertezas – Complexidade e Ambiguidade.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Ano 8 Post 133 - O grande dom da minha mãe - de Marie Ragghiandi



Eu tinha dez anos de idade quando minha mãe teve paralisia, causada por um tumor
na espinha dorsal. Antes disso ela havia sido uma mulher vibrante e vigorosa, de tal
maneira ativa que a maioria das pessoas achava impressionante.
Mesmo quando era pequena, eu ficava admirada com suas realizações e por sua
beleza. Porém, quando tinha trinta e um anos, sua vida mudou. Assim como a minha.
Do dia para a noite, parecia, ela passou a ficar deitada de costas em uma cama de
hospital. Um tumor benigno a havia incapacitado, mas eu era jovem demais para
compreender a ironia da palavra "benigno", pois ela nunca mais seria a mesma.
Ainda tenho imagens vívidas dela antes da paralisia. Ela sempre foi gregária e
recebia muitas visitas. Com freqüência passava horas preparando canapés e enchendo a
casa de flores,
que colhia frescas no jardim cultivado ao lado da casa. Selecionava as músicas
populares da época e rearrumava a mobília a fim de abrir espaço para que os amigos
pudessem se entregar à dança. Na realidade, era minha mãe quem mais gostava de dançar.
Hipnotizada, eu a observava se vestir para as festividades noturnas. Mesmo hoje em
dia ainda me lembro de nosso vestido favorito, com sua saia preta e corpete de renda azulmarinho,
o contraste perfeito para seu cabelo louro. Fiquei tão emocionada quanto ela no
dia em que trouxe para casa sapatos de salto alto de renda preta e, naquela noite, minha
mãe certamente era a mulher mais bonita do mundo.
Eu acreditava que ela podia fazer qualquer coisa, fosse jogar tênis (ganhara
campeonatos na universidade), costurar (fazia todas as nossas roupas), tirar fotografias
(ganhou um concurso nacional), escrever (era colunista de um jornal) ou cozinhar
(especialmente pratos espanhóis para meu pai).
Agora, apesar de não poder fazer nenhuma dessas coisas, ela encarava sua doença
com o mesmo entusiasmo que tinha em relação a tudo o mais.
Palavras como "deficiente" e "fisioterapia" tornaram-se parte de um estranho mundo
novo no qual entramos juntas, e as bolas de borracha para crianças que ela se esforçava
para apertar adquiriram um simbolismo que jamais haviam possuído.
Gradualmente, passei a ajudar nos cuidados com a mãe que sempre cuidara de mim.
Aprendi a cuidar do meu próprio cabelo - e do dela. Eventualmente, tornou-se rotina levá-la
na
cadeira de rodas até a cozinha, onde ela me ensinava a arte de descascar cenouras e
batatas e como esfregar alho e sal e pedaços de manteiga em uma boa carne assada.
Quando, pela primeira vez, ouvi falarem em uma bengala, opus-me:
- Não quero que a minha linda mãe use uma bengala. Mas a única coisa que ela
disse foi:
- Não é melhor você me ver andando com uma bengala do que não me ver andando
de maneira alguma?
Cada conquista era um marco para nós duas: a máquina de escrever elétrica, o carro
com câmbio e freio automáticos, sua volta à universidade, onde se diplomou em Educação
Especial.
Ela aprendeu tudo o que podia sobre as pessoas com deficiências e acabou fundando
um grupo ativista de apoio chamado Os Incapacitados. Certo dia, sem ter falado muito de
antemão, ela me levou e a meus irmãos a uma reunião dos Incapacitados. Eu nunca vira
tantas pessoas com tantas deficiências. Voltei para casa, silenciosamente introspectiva,
pensando em como nós realmente tínhamos sorte. Ela nos levou muitas vezes depois disso
e, eventualmente, a visão de um homem ou uma mulher sem pernas ou braços não nos
chocava mais. Minha mãe também nos apresentou a vítimas de paralisia cerebral,
enfatizando que a maioria era tão inteligente quanto nós, talvez mais. E nos ensinou a nos

comunicarmos com os retardados mentais, mostrando como eles eram freqüentemente
mais afetuosos, comparados às pessoas normais. Durante tudo isso, meu pai continuou a
amá-la e apoiá-la.
Quando eu estava com onze anos, minha mãe me contou que ela e papai iriam ter
um bebê. Muito depois, eu soube que seus médicos tinham insistido para que ela fizesse um
aborto (terapêutico) - uma opção à qual ela resistiu veementemente.
Logo, éramos mães juntas, já que virei mãe adotiva de minha irmã, Mary Therese.
Em pouquíssimo tempo aprendi a trocar fraldas, banhá-la e alimentá-la. Ainda que
mamãe tenha mantido a disciplina maternal, para mim foi um passo gigantesco além da
brincadeira com bonecas.
Um momento se destaca mesmo hoje em dia: o dia em que Mary Therese, na época
com dois anos, caiu e esfolou o joelho, abriu-se em prantos e passou correndo pelos braços
estendidos de minha mãe para os meus. Tarde demais, eu vislumbrei a faísca de dor no
rosto de mamãe, mas tudo o que ela disse foi:
- É natural que ela corra para você, pois você toma conta dela tão bem...
Como minha mãe aceitava sua condição com tanto otimismo, raramente me senti
triste ou ressentida. Mas nunca irei esquecer o dia em que minha complacência foi
destruída.
Muito tempo depois da imagem de minha mãe em salto agulha ter se dissipado da
minha consciência, houve uma festa em nossa casa. A essa altura eu era adolescente, e vi
minha sorridente mãe sentada na lateral, olhando seus amigos dançarem, e fui atingida
pela cruel ironia de suas limitações físicas. Subitamente, fui transportada de volta à época
de minha primeira infância e a visão de minha mãe dançando radiante estava novamente
diante de mim.
Imaginei se mamãe se lembraria também. Espontaneamente, andei em sua direção
e então vi que, apesar de estar sorrindo, seus olhos estavam marejados de lágrimas.
Corri para fora do aposento e para o meu quarto, enterrei meu rosto no travesseiro e
chorei copiosamente - todas as lágrimas que ela jamais chorara. Pela primeira vez, eu me
enraiveci contra Deus e contra a vida e suas injustiças para com a minha mãe.
A lembrança do sorriso brilhante de minha mãe permaneceu comigo. Daquele
momento em diante, enxerguei sua habilidade de superar a perda de tantas batalhas
anteriores e seu ímpeto em olhar para a frente - coisas que eu tomava por certas - como
um grande mistério e uma poderosa inspiração.
Quando eu estava crescida e comecei a trabalhar com o sistema penal, mamãe se
interessou em trabalhar com os prisioneiros. Ela telefonou para a penitenciária e pediu para
dar aulas de Redação Criativa para os detentos. Lembro-me de como eles se amontoavam
em volta dela sempre que ela chegava e pareciam se agarrar a cada palavra sua, como eu
fizera na infância.
Mesmo quando não podia mais se deslocar até a prisão, ela frequentemente se
correspondia com vários detentos.
Um dia pediu-me para enviar uma carta para um prisioneiro, ''Waymon”. Perguntei
se poderia lê-la antes e ela concordou, sem perceber, eu acho, o quanto aquilo seria
revelador para mim.
Dizia:
"Querido Waymon,
Quero que saiba que tenho pensado em você com freqüência desde que recebi sua
carta. Você mencionou como é difícil estar preso atrás das grades e meu coração se une ao
seu. Mas quando você disse que eu não imagino o que é estar na prisão, senti-me
compelida a dizer-lhe que está errado.
Existem diferentes tipos de liberdade, Waymon, diferentes tipos de prisões. Às
vezes, nossas prisões são auto impostas.
Quando, com a idade de trinta e um anos, levantei-me um dia para descobrir que
estava completamente paralisada, senti-me em uma armadilha - dominada pela sensação de estar presa dentro de um corpo que não mais me permitiria correr através de uma
campina, dançar ou carregar minha filha nos braços.
Fiquei deitada ali durante muito tempo, lutando para chegar a um acordo com minha
enfermidade, tentando não sucumbir em autopiedade. Perguntei-me se, na verdade, valeria
a pena viver nessas condições, se não seria melhor morrer.
Pensei a respeito desse conceito de prisão, pois me parecia que havia perdido tudo o
que importava na vida. Eu estava próxima do desespero.
Mas, então, um dia me ocorreu que, na realidade ainda havia opções abertas para
mim e que eu tinha a liberdade de escolher entre elas. Será que eu iria sorrir quando visse
meus filhos de novo, ou iria chorar? Iria zangar-me em Deus, ou iria pedir que Ele
fortalecesse minha fé?
Em outras palavras, o que eu iria fazer com o livre-arbítrio que Ele havia me dado e
que ainda era meu?
Tomei a decisão de lutar, enquanto estivesse viva, para viver o mais plenamente
possível, para procurar tornar minhas experiências aparentemente negativas em
experiências positivas, procurar formas de transcender minhas limitações físicas expandindo
minhas fronteiras mentais e espirituais.
Eu podia escolher entre ser um exemplo positivo para meus filhos ou podia murchar
e morrer emocional assim como fisicamente.
Existem muitos tipos de liberdade, Waymon. Quando perdemos um tipo de
liberdade, temos que simplesmente procurar por outro. Você e eu somos abençoados com a
liberdade de escolher entre bons livros, que iremos ler, quais deixaremos de lado.
Você pode olhar para as suas grades ou pode olhar através delas. Você pode ser um
exemplo para prisioneiros mais jovens ou pode se misturar com os encrenqueiros.
Você pode amar a Deus e buscar conhecê-lo ou pode virar as costas para Ele.
Até certo ponto, Waymon, estamos nisso juntos. "
Quando finalmente terminei de ler a carta, minha visão estava borrada pelas
lágrimas. Ainda assim, pela primeira vez, eu enxerguei minha mãe com clareza.
E eu a entendi. 


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